quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Lições mal aprendidas em Pombal: as inundações esquecidas..


Estamos quase a um mês de uma data marcante para os pombalenses. Foi no dia 25 de Outubro de 2006 que um evento extremo afectou Pombal, destruindo/afectando muitos bens privados e públicos, trazendo com isso centenas de milhares de euros de prejuízos.
Não vou aqui falar de prejuízos, vou sim falar o que afinal causou o prejuízo, ou seja o cerne da questão. É, infelizmente, algo de muito esquecido pelos lados de Pombal, fundamentalmente por quem responsabilidades no caso.
No que se trata de ordenamento do território, os erros pagam-se caro, Narciso Mota que o diga, pois foi fundamentalmente a sua política do betão e impermeabilização de solos, ocorrida nos seus vários mandatos, que, em última instância, levou a grande parte das consequências derivadas das inundações ocorridas naquela data. Este autarca é o perfeito exemplo do quanto negativo pode ser a falta de formação dos autarcas num domínio sobre o qual todos eles deveriam ter formação mínima, pois só assim se pode gerir um território. O território é a base da economia e quando o território é posto em segundo plano as coisas correm mal...
A minha intenção ao falar deste tema, ainda faltando 1 mês para o "aniversário" do evento é simples. Quando chegar o dia, alguns dos pombalenses já têm o assunto mais vivo na memória, sabendo dos porquês e estando desta forma mais conscientes do que podem fazer e denunciar para que a história não se volte a repetir. É uma questão de consciencialização para que na altura de "comemorações" as pessoas possam criticar, construtivamente, quem sistematicamente se desculpabiliza de alguma forma, dizendo que terá chovido demais...
Infelizmente a história irá repetir-se, mas com consequências mais graves. Mais adiante irei referir o porquê.
Pombal está situado numa área algo complexa, algo que não era problema há umas décadas atrás, mas com o avançar dos tempos a construção foi ocupando áreas sensíveis, nomeadamente o leito de cheia do rio. Desta forma começou a surgir um problema grave, o qual foi sistematicamente ignorado, não sendo considerado como prioridade em termos de análise.
Mais tarde surgiram os Instrumentos de Gestão Territorial, algo de tendencialmente positivo. Apesar de ser positivo não o era em muitos casos para o imobiliário, tinha de se construir, construir e impermeabilizar, pois isso é que era importante "para todos". Foi-se desvirtuando muito do que significaria o verdadeiro ordenamento do território a favor do imobiliário e a desfavor das populações.
Surgiram problemas com esta urbanização massiva e contra-natura e obviamente que pessoas mais informadas, muitas vezes especialistas, surgiram. Foram chamadas de impedidoras do desenvolvimento (e coisas do género...) e a inobservância de regras elementares sobre a gestão territorial começou a acumular peso a mais, tornando-se insustentável.
E no dia 25 de Outubro de 2006 veio a conhecida "cheia centenária", trazendo, tragicamente a plena razão aqueles que eram intitulados como impedidores desenvolvimento ou mais vulgarmente conhecidos como "ambientalistas". A história dos fundamentalistas já não pega, pois há-os em todos os lugares...
Mesmo pessoas pouco informadas tiveram a oportunidade de constatar tristemente o que era evidente, ignorar a natureza causa problemas...
Uma das coisas que mais me impressiona, é a contínua negação do evidente por parte do edil pombalense. E o "engraçado" é que com os anos a lição não se aprende. A foto que vêm no início deste texto, é do estacionamento ao lado da ponte da antiga estrada real, e é a prova do que refiro.
Mesmo depois da tragédia do dia 25 de Outubro de 2006, o autarca local sabendo que a impermeabilização dos solos só piora as coisas, mandou alcatroar esta área significativa. Em vez de promover a permeabilização dos solos, piora-a a olhos vistos. Podia ter colocado um piso permeável, pois existe, mas alcatroar é mais fácil...
Se repararem, grande parte das margens do rio estão impermeabilizadas e os planos são para expandir. As margens, propriamente ditas, não existem no troço urbano da cidade, existem sim taludes impermeabilizados.
Outro facto importante é que as pedreiras (monstros) de Sicó têm depositado ao longo dos tempos toneladas e toneladas de pó que tem impermeabilizado as vertentes Oeste e Sudoeste da Serra de Sicó. Este é um pequeno grande pormenor que muitas pessoas não imaginam... Vão à serra e escavem uns cm, vão ver...
Mesmo nesta questão das pedreiras e da impermeabilização parcial dos solos devido às toneladas de pó, surgem soluções mirabolantes, caso de uma ideia para construir açudes em alguns valeiros na serra para minorar o problema. Além desta ideia absurda não poder mitigar o problema, só o piora, pois aumentaria apenas o risco a que os pombalenses já estão expostos hoje em dia.
Quando passearem por Pombal, vejam à vossa volta e pensem naquilo que vos acabei de referir. Penso que vão começar a ver as coisas de outra forma.... Respirem o território e vão ver que há muito que vos passa ao lado, algo de conveniente para quem nos (des)governa.
Quando chegar ao dia 25 de Outubro deste ano, peçam responsabilidades, pois a culpa não foi da chuva, foi sim de quem deveria gerir um território de forma sustentada, pensando menos no imobiliário e mais na segurança e qualidade de vida dos pombalenses.
Lembrem-se que a cheia centenária, apesar de ter ocorrido em 2006 não significa que daqui a poucos anos não poderá repetir-se novamente... As probabilidades de acontecer outra vez são cada vez mais elevadas. E quando isso acontecer, infelizmente nem os heróicos bombeiros vão estar preparados, isto porque a Câmara Municipal de Pombal autorizou a implantação do seu actual quartel numa área de risco. Em 2006 parte do recinto ficou... inundado. É um conceito alternativo de protecção civil em Pombal, sem dúvida.
Infraestruturas, caso de hospitais, bombeiros, polícia, etc, nunca podem ser localizadas em áreas de risco, como infelizmente acontece em Pombal. É algo de básico, no domínio do ordenamento do território, que é esquecido por estes lados.
Uma população informada torna-se um notável agente de desenvolvimento territorial, resta ao azinheiragate contribuir de forma positiva para que isso possa acontecer.

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